sexta-feira, 27 de abril de 2012

FRUSTRO A TARDE QUE CHEGA



Frustro a tarde que chega
E suas desavenças de calor excedente
Filha destes raios pastoreios,
Boiadeiros dos que buscam seu lugar
Ao sol,
No rol,
Ao céu
Ou ao léu,
Bandoleiros na noite clandestina
Mumificados na triste avenida.
 
Frustro a tarde que chega,
Quando assisto a queda do sol
E quando furto uma estrela noturna.
 
Frustro a tarde que chega,
Ao meio-dia, minha carne é fria;
E quando a dor é inquilina.
 
Sai a tarde...
Sombras lutam esmagando os sóis,
E magnetizo-me nos anéis da noite,
Envolvendo-me em teus dedos
E em tua nua pele escura.

Vago no frio da rua,
E um calor me causa desatino:
Lembranças de um amor latente
Devoram o peito num vapor desumano.
 
E no mesmo passo do fluxo
Em que estrelas conspiram contra a Via Láctea,
Manifesto-me contra o sol
Mas em prol do calor,
Em toda benevolência;
E me incendiar na aurora das tardes,
Gozando de toda dor, amor e rebento;
Humano ou desumano.
Mesmo não encontrando alento,
Nos amores que frustrei,
Nos amores que mereci,
Nestas tardes
Frustradas pelo meu querer.
 
 
Washington Luiz da Silva Santos

quinta-feira, 26 de abril de 2012

RE-TRATO CONTRA O RETRATO



Retrato contra o retrato
Cujo trato tão desalmado
Da imagem de quimera, de uma vida isolada,
Não trouxe luz, nem brilho ao fato.

Retrato contra o retrato
Porque te impõe em tamanha pujança?
No perdão, a redenção, no último ato;
No castigo, a eminência de tua lembrança. 

Re-trato por este retrato
E difícil é encontrar a palavra certa,
Daí surgem os devaneios do poeta,
Relegado a ser vagante,
Sujeito à dor
Só lhe resta tornar-se amante,
Mas seus olhos o traem, e atraem!
No instinto de uma “selvageria doce”,
A ser feliz na miséria ignóbil
E pueril no inferno da lógica.
Os resquícios do colorido
Do mundo em que mergulhou,
Deram-lhe uma amante, um retrato.

No esvaecer e na mais tenra lembrança,
De um dia chuvoso
E do crepúsculo de um amanhecer
Sente-se um sangue gélido, ainda pulsa.
É um rubro de amor,
Desatino,
Subserviência,
E prazer suprimido
No corpo do homem,
Feito chuva na terra, em lama,
Ou sobre a maltratada dama,
Jogada na cama,
E esquecida no tempo,
Cujo grave tormento,
Esta memória marcou.

Re-trato com saudades
A imagem que vejo,
O inverso do teu retrato,
Tem uma cor boreal, é o meu espelho!
Meu corpo desbota e desfolha,
Envelhece e se torna escravo
Da tua fatídica juventude
Que assassinou estes anos de glória
E meus puros e bons sentimentos
(e o que faço com os covardes
e impotentes que ficaram?).
Enquanto os homens
Faziam revolução,
Eu compus uma canção,
Eu preferi fazer amor,
Contestar deuses e vermes,
Provar que não havia riscos
De dizer “Eu te Amo”
Parecer ilógico, estúpido,
Ao reinventar um homem feliz.

Retrato contra o retrato
E mais um poema queimava
Sobre a luz da vela
E o poeta, cansado de escrever,
Declama-se em valsa, sonatas,
Prelúdios e operetas,
À amada que mesmo surda,
Dançava e encantava,
Com exímia leveza.
Mas ela, já está distante, tão longe:
No império das almas.

Re-trato mais uma vez o retrato
Que não existe mais
Ele se foi com o último poema,
Dedicado à mulher que trouxe ao poeta,
Um misto de dor e amor.
Mesmo que o mundo
Encha de cores outro retrato,
Não surgirá sentimento maior:
Aquele mesmo dia frio e chuvoso levou
O poeta,
A dama,
O amor e a dor,
E as cinzas deste retrato.
 
 

Washington Luiz da Silva Santos

DIAS DE SOL, DIAS DE CHUVA


Saio cedo, com o espírito atônito.
Pra receber luz...  somente luz!
Como quem vem da alcova
Dar seu ultimo grito
E emitir as boas-novas
Galhardeando resistência
Insensível à carne trêmula
Que os fartos anos me jazem.

Contra quem travamos nossas batalhas?
Para quê nós nos saímos vencedores? E daí?
Foi inútil chegar em primeiro!
Derrotamos... a quem? Quando?
Pouco importa!
A ideologia da vitória,
O “sucesso” na vida esvaecem,
Os nossos mitos, os nossos sonhos, a nossa ótica,
E um grito de glória, rouco e distorcido,
Chamusca agora um retrato de uma infância
Que resiste a seu próprio fim.

E a Natureza que então
Por sede de justiça, ou por vontade própria;
Paira em nós a chuva,
Que encharcam as cinzas
Do que um dia foi matéria-viva,
E elemento-abstrato de outra época.
Umedece o coração do ser
Que um dia viveu em solo úmido
Tocando os céus com as mãos
Mas com os pés firmes no chão.
Sentindo a luz maior que o Sol
A imensidão de si maior que o mar
E ver que a melhor forma de ver
É pensar em “como ver”
como ter (e deixar de ter)
mantendo o caminho aberto
pra conquistar as coisas que
em dias de sol, em dias de chuva
não nos prometemos mais.



Washington Luiz da Silva Santos







quarta-feira, 25 de abril de 2012

ANIQUILAÇÃO


Vencido,
Devastado.
O mormaço da luz
Pousou em meus olhos
Lágrimas em átomos de Urânio,
Elas se deleitarão sobre a fina flor
Pele da terra,
Seio da humanidade.
Sem querer, vai tomar forma:
O corpo da Lua.

Nua!

Washington Luiz da Silva Santos

TRINCHEIRA DE SEDA


Sob a pompa das castas putas,
Num vôo sobre a linha dos mortais
Uma última oração em desespero
Sobre o corpo opulento, em carne vil,
Ao custo de alívios viscerais.
- Não te escarnais.

Oh, ser de espírito loquaz!
Cumpre e assume tua tormenta
Quando a dor findar, ostentas,
Neste leito de lamurio, tua abarrancada paz.
Então, usurpa de teus devaneios. Inventa!
Cobre estes pensamentos que aqui jaz
Com o canto da ave que lamenta
O alçar do vôo que não foi capaz.

Arranca da face este prenúncio do céu
E dá ao rosto, o frescor sobre o suor frio...
Fornica os bustos da Divina Donzela, e com um leve brio
Acalanta teus alardes, mas não pousa este véu!
A ilusão se afasta e me deixa ao léu,
E fez da realidade meu próprio martírio.
- Oh, partida temerosa;
Frívola em teus turvos caminhos
Tu és natureza, e eu sou tua arte;
Tu que causa balbúrdia nos meus paladares;
Padece a tua corja de fobias e desdenhos,
Empreende o cálice aos mais doces vinhos
E remete-me ao mais profundo dos oceanos e mares.


Porém,
Exime de mim o gosto deste desgosto
Retrate a proeminência do meu desassossego
Desfaz este pesar que me torna ‘resto’
E da vida, um vômito amargo.
Permita também que eu lamente
Pelo amor não declarado em vida,
Pelos segredos que guardei na mente,
Pelo ser ríspido e voraz, e descontente;
e com o rosto coberto de seda
Ainda assim, você me amaria?
Perdoar-me-ia?

Agora ouço o som do Oboé
Que me dirige ao interior da trincheira,
Meu cálice já está vazio
Já não há mais vida pra travar,
Nem há vencedores...  vencidos! 

E o fim se confunde com a paz.



Washington Luiz da Silva Santos.

ENTRE OS MEUS ANJOS E DRAGÕES MECENAS



Ontem, lembrei-me de lembrar do futuro!  

Na melhor idade eu desfraldava
Com empáfias o corpo saliente
Às aventuras infantis sobre essa terra
Molhada pelas estações
Ignorada pelo esmero positivista
Ababelando uma série de proezas
Em vôos rasantes e inalcançáveis
Sobre este céu que se vê tão perto
Tão perto
Tão perto
Que nem parece o céu! 

Ontem, lembrei-me de lembrar do futuro!

Eu acariciava o rosto de Lênin
Enquanto ouvia os barulhos
Que vinham dos confins da China:
Tung! Tung! Tung!
Numa linda onomatopéia vermelha
A mesma que batia nos sangues
Dos filhos de Vishnu e Ghandi,
E nos “papas” do rock and roll.
Mas fiquei quieto!
E deixei os meninos amarem,
Seu tempo presente e seu espírito matreiro,
Era o que eles tinham
Era o que eu tinha também! 

Ontem, lembrei-me de lembrar do futuro!

Mas já badalavam os sinos
Tortuosos e Uníssonos
É hora de trabalhar
Sobreviver
De seguir a dura e velha ditadura do tempo
E percorrer a beleza hedonistica
Que o próprio puto-tempo criou.
Que faço desta hora? Desse dia?
Deste prazo? Deste fado?
Mas, veja o que nós nos tornamos!
Figuras de uma enorme pintura
Juntas de outras figuras
(sinos, máquinas, castelos e dragões)
Criada pelos rivais de Sans-cullotes.
O que fazer então? 

Ontem, lembrei-me de lembrar do futuro!

Para que amanhã, eu não esqueça,
De poder lembrar-me do passado
Na consciência do meu próprio presente.


Washington Luiz da Silva Santos

ÀS NOSSAS LÍNGUAS


Oh, língua apreensiva!
a que seduz a mente dos homens
a que lambe os ossos dos imortais já sucumbidos
a que trai e coroa os reis e heróis da nossa historia
a que vende a felicidade aos povos e as nações
a que nos faz fruto daquilo que não se pode colher
                                              (mas se consome).
a que nos faz idéia barata, idéia viva,...idéia tosca!
e enfim nos torna único, porém, apenas mais um.

Oh, língua metafísica!
Que possui o ardor do sabor amargo do teu corpo
Que aceita o desprezo e a face vil da língua rival
Que balbucia diante de teu olhar penetrante
Que me faz ser multidão com um só coração
E faz uma revolução em mim a cada instante.
Que acorrenta minha razão, libertando meu amor
E mesmo que eu ame, incapacita para o exercicio de amar.
...ou que capacite, outras vezes não ame.

Oh, língua linguagem!
A que destrói (e constrói) as barreiras da métrica e da estilística.
Que é harmônica, é livre, e é desimpedida na linguagem do amanhã;
A que roça a língua da língua de outros homens
A chave de acesso ao científico, ao oculto, ao belo...
E que é bela por transformar pensamento em matéria,
Embora não encontre o "caminho de volta"

Oh língua,... a dos sentidos!
A que me prende o paladar, só para perceber os sabores;
Que do sabor se despertam os outros sentidos,
Que faz de cada gosto um gosto, uma cultura:
O gosto do beijo, o gosto dos sabores e dissabores,
E me faz estar próximo do teu e do meu prazer, num senso comum. 

“Mas...
Ainda que eu esteja desprovido
Do gosto de sentir o gosto
De sentir o aroma das rosas e das flores
Ainda que seja Agosto;
Que eu possa tornar em prosa:
Um simples toque no teu rosto,
Um breve olhar no movimento
(da vida, da arte, do pensamento,
E até do que é inerte),
um contato surreal com patriarcas
Que falavam de outras vidas
n'outro tempo e espaço.
O repousar de um mundo
Num canto de um travesseiro.
Tudo isso pra poder estar longe,
E ao mesmo tempo tão perto de alcançar
Um algo a mais...
Aquilo no qual não faço conceito
Mas faço idéia, faço sentir... e existir. 

...e ainda que eu, desprovido,
De algum tipo de língua,
Existirá em mim a certeza de que
A poesia sempre irá responder ao mundo
Com uma salva do amanhã." 

 
Washington Luiz da Silva Santos