Oh, língua apreensiva!
a que seduz a mente dos homens
a que seduz a mente dos homens
a que lambe os ossos dos imortais já sucumbidos
a que trai e coroa os reis e heróis da nossa historia
a que vende a felicidade aos povos e as nações
a que nos faz fruto daquilo que não se pode colher
(mas se consome).
a que nos faz idéia barata, idéia viva,...idéia tosca!
e enfim nos torna único, porém, apenas mais um.
Oh, língua metafísica!
Que possui o ardor do sabor amargo do teu corpo
Que aceita o desprezo e a face vil da língua rival
Que balbucia diante de teu olhar penetrante
Que me faz ser multidão com um só coração
E faz uma revolução em mim a cada instante.
Que acorrenta minha razão, libertando meu amor
E mesmo que eu ame, incapacita para o exercicio de amar.
...ou que capacite, outras vezes não ame.
Oh, língua linguagem!
A que destrói (e constrói) as barreiras da métrica e da
estilística.
Que é harmônica, é livre, e é desimpedida na linguagem do
amanhã;
A que roça a língua da língua de outros homens
A chave de acesso ao científico, ao oculto, ao belo...
E que é bela por transformar pensamento em matéria,
Embora não encontre o "caminho de volta"
Oh língua,... a dos sentidos!
A que me prende o paladar, só para perceber os sabores;
Que do sabor se despertam os outros sentidos,
Que faz de cada gosto um gosto, uma cultura:
O gosto do beijo, o gosto dos sabores e dissabores,
E me faz estar próximo do teu e do meu prazer, num senso
comum.
“Mas...
Ainda que eu esteja desprovido
Do gosto de sentir o gosto
De sentir o aroma das rosas e das flores
Ainda que seja Agosto;
Que eu possa tornar em prosa:
Um simples toque no teu rosto,
Um breve olhar no movimento
(da vida, da arte, do pensamento,
E até do que é inerte),
um contato surreal com patriarcas
Que falavam de outras vidas
n'outro tempo e espaço.
O repousar de um mundo
Num canto de um travesseiro.
Tudo isso pra poder estar longe,
E ao mesmo tempo tão perto de alcançar
Um algo a mais...
Aquilo no qual não faço conceito
Mas faço idéia, faço sentir... e existir.
...e ainda que eu, desprovido,
De algum tipo de língua,
Existirá em mim a certeza de que
A poesia sempre irá responder ao mundo
Com uma salva do amanhã."
Washington Luiz da Silva
Santos

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