quarta-feira, 25 de abril de 2012

TRINCHEIRA DE SEDA


Sob a pompa das castas putas,
Num vôo sobre a linha dos mortais
Uma última oração em desespero
Sobre o corpo opulento, em carne vil,
Ao custo de alívios viscerais.
- Não te escarnais.

Oh, ser de espírito loquaz!
Cumpre e assume tua tormenta
Quando a dor findar, ostentas,
Neste leito de lamurio, tua abarrancada paz.
Então, usurpa de teus devaneios. Inventa!
Cobre estes pensamentos que aqui jaz
Com o canto da ave que lamenta
O alçar do vôo que não foi capaz.

Arranca da face este prenúncio do céu
E dá ao rosto, o frescor sobre o suor frio...
Fornica os bustos da Divina Donzela, e com um leve brio
Acalanta teus alardes, mas não pousa este véu!
A ilusão se afasta e me deixa ao léu,
E fez da realidade meu próprio martírio.
- Oh, partida temerosa;
Frívola em teus turvos caminhos
Tu és natureza, e eu sou tua arte;
Tu que causa balbúrdia nos meus paladares;
Padece a tua corja de fobias e desdenhos,
Empreende o cálice aos mais doces vinhos
E remete-me ao mais profundo dos oceanos e mares.


Porém,
Exime de mim o gosto deste desgosto
Retrate a proeminência do meu desassossego
Desfaz este pesar que me torna ‘resto’
E da vida, um vômito amargo.
Permita também que eu lamente
Pelo amor não declarado em vida,
Pelos segredos que guardei na mente,
Pelo ser ríspido e voraz, e descontente;
e com o rosto coberto de seda
Ainda assim, você me amaria?
Perdoar-me-ia?

Agora ouço o som do Oboé
Que me dirige ao interior da trincheira,
Meu cálice já está vazio
Já não há mais vida pra travar,
Nem há vencedores...  vencidos! 

E o fim se confunde com a paz.



Washington Luiz da Silva Santos.

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