Retrato contra o retrato
Cujo trato tão desalmado
Da imagem de quimera, de uma
vida isolada,
Não trouxe luz, nem brilho ao
fato.
Retrato contra o retrato
Porque te impõe em tamanha
pujança?
No perdão, a redenção, no
último ato;
No castigo, a eminência de
tua lembrança.
Re-trato por este retrato
E difícil é encontrar a
palavra certa,
Daí surgem os devaneios do
poeta,
Relegado a ser vagante,
Sujeito à dor
Só lhe resta tornar-se
amante,
Mas seus olhos o traem, e
atraem!
No instinto de uma
“selvageria doce”,
A ser feliz na miséria
ignóbil
E pueril no inferno da
lógica.
Os resquícios do colorido
Do mundo em que mergulhou,
Deram-lhe uma amante, um
retrato.
No esvaecer e na mais tenra
lembrança,
De um dia chuvoso
E do crepúsculo de um
amanhecer
Sente-se um sangue gélido,
ainda pulsa.
É um rubro de amor,
Desatino,
Subserviência,
E prazer suprimido
No corpo do homem,
Feito chuva na terra, em
lama,
Ou sobre a maltratada dama,
Jogada na cama,
E esquecida no tempo,
Cujo grave tormento,
Esta memória marcou.
Re-trato com saudades
A imagem que vejo,
O inverso do teu retrato,
Tem uma cor boreal, é o meu
espelho!
Meu corpo desbota e desfolha,
Envelhece e se torna escravo
Da tua fatídica juventude
Que assassinou estes anos de
glória
E meus puros e bons
sentimentos
(e o que faço com os covardes
e impotentes que ficaram?).
Enquanto os homens
Faziam revolução,
Eu compus uma canção,
Eu preferi fazer amor,
Contestar deuses e vermes,
Provar que não havia riscos
De dizer “Eu te Amo”
Parecer ilógico, estúpido,
Ao reinventar um homem feliz.
E mais um poema queimava
Sobre a luz da vela
E o poeta, cansado de escrever,
Declama-se em valsa, sonatas,
Prelúdios e operetas,
À amada que mesmo surda,
Dançava e encantava,
Com exímia leveza.
Mas ela, já está distante, tão longe:
No império das almas.
Re-trato mais uma vez o retrato
Que não existe mais
Ele se foi com o último poema,
Dedicado à mulher que trouxe ao poeta,
Um misto de dor e amor.
Mesmo que o mundo
Encha de cores outro retrato,
Não surgirá sentimento maior:
Aquele mesmo dia frio e chuvoso levou
O poeta,
A dama,
O amor e a dor,
E as cinzas deste retrato.
Washington Luiz da Silva Santos

Arrebatador, estilo Álvares de Azevedo. Gostei!
ResponderExcluirMuito bom! 👍
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